Segunda-feira, 19 de Outubro de 2009

"O fechar de um ciclo" (recensão do jornal I ao livro O Mar em Casablanca)

"Cinco anos depois, Francisco José Viegas publica um novo romance protagonizado pelo inspector Jaime Ramos

"O Mar em Casablanca" retoma o espírito deambulatório de "Longe de Manaus" (Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, em 2005). Mas, ao contrário do anterior volume protagonizado pelo inspector Jaime Ramos, a geografia adquire aqui uma densidade menor, substituída em parte pela turbulenta paisagem interior do polícia envelhecido e fragilizado. A ideia de viagem mantém-se. Através de Ramos, Francisco José Viegas fala do que gosta, quer seja na exaltação dos momentos de pequenos prazeres como fumar, ou nas descrições de variações gastronómicas, quer, no caso em apreço, no empenho com que apresenta gentes e lugares, como se fossem mais um elemento da acção, sendo desta indissociável. No entanto, o exotismo solar e expansivo de "Longe de Manaus", internando-se progressivamente nas idiossincrasias de um país, o Brasil, que é como um continente, transforma-se em "O Mar em Casablanca" num caos tempestuoso. A primeira cena, que mostra um homem (não vou revelar-lhe a identidade para não prejudicar a leitura) numa ponte da cidade do Porto, "uma estátua numa noite de chuva", "debruçado sobre o vazio", dá o tom a toda a obra.

Em "O Mar em Casablanca" há como que um regresso ao passado, às origens. Os cenários são essencialmente domésticos - Chaves, Douro, o Palace Hotel do Vidago. Porquê então o título a apelar a outras paragens? Casablanca surge no livro como um território mítico, uma terra que para além da existência concreta foi reinventada no século XX pelo imaginário cinéfilo, numa referência explícita ao filme homónimo protagonizado por Humphrey Bogart e Ingrid Bergman, zona de romantismo irreal e, no desfecho final da criação de Viegas, símbolo de liberdade e subversão. A arte da fuga em tonalidades cinzentas, posta em prática por duas personagens do livro.

Vamos a factos. Há três cadáveres em "O Mar em Casablanca". Não em simultâneo, mas aparecendo a intervalos na história. Eles são o pretexto para mais uma investigação do inspector Jaime Ramos, secundado pelos subordinados aplicados Isaltino de Jesus e o cabo-verdiano José Corsário. Acontece que é possível estabelecer uma ligação entre as primeiras duas mortes, visto ambos os homens terem sido assassinados pela mesma arma.

Toda a obra é construída em torno da ideia claustrofóbica de que o passado acabou por apanhar o inspector, de que não existe escapatória possível. Ramos, que mascara a fragilidade com cinismo, quase sucumbe a estas forças, enquanto mantém apurado o instinto de polícia dado aos monólogos (o excesso desse recurso é a grande debilidade deste romance), à contemplação poética e à criação de uma boa história capaz de explicar as motivações e psicologia dos prevaricadores.

O "Mar em Casablanca" move-se entre diferentes tempos, o presente e várias camadas de passado (a diáspora portuguesa na Venezuela também é retratada através de duas gerações de aventureiros). Mais do que um policial em sentido estrito (são intencionalmente deixadas várias pontas soltas numa obra que respira subtilezas) esta é uma história de vingança, de lealdade e de amor, vivida por personagens dotadas de um sentido de tragédia que só costuma ocorrer em momentos radicais da História."

Alexandra Macedo

(recensão ao livro "O Mar em Casablanca", publicada na edição de sábado do jornal I)
publicado por Porto Editora às 10:19
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o autor

Francisco José Viegas nasceu em 1962. Foi professor universitário e jornalista, tendo sido director da revista Grande Reportagem e da Casa Fernando Pessoa.

Actualmente é director editorial da Quetzal e director da revista Ler, colaborador de vários jornais e revistas (nomeadamente Correio da Manhã, A Bola, Volta ao Mundo). Foi responsável por programas na rádio (Antena 1) e televisão (Livro Aberto, Escrita em Dia, Ler para Crer, Primeira Página, Avenida Brasil, Prazeres e Um Café no Majestic).

Da sua obra destacam-se livros de poesia (Metade da Vida, O Puro e o Impuro e o mais recente Se Me Comovesse o Amor) e os romances Regresso por um Rio, Morte no Estádio, As Duas Águas do Mar, Um Céu Demasiado Azul, Um Crime na Exposição, Um Crime Capital, Lourenço Marques e Longe de Manaus, com o qual obteve o Grande Prémio de Romance e Novela, de 2005, da Associação Portuguesa de Escritores.

Os seus livros estão publicados na Itália, Alemanha, Brasil, França e República Checa.

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