Sexta-feira, 16 de Outubro de 2009

Jaime Ramos entre memórias (Jornal de Negócios)

 

«Francisco José Viegas regressa com um excelente romance sobre o choque entre dois mundos emocionais e racionais.  
 
Jorge Luís Borges dizia que o policial estava a salvar a ordem numa época de desordem. O inspector Jaime Ramos talvez concorde: nos seus livros ele tenta encontrar alguma ordem interna no meio da desordem que o circula. Talvez ele seja um dos portugueses que, não afectados pelo vírus do sonho consumista que surge disfarçado de modernidade, olha para Portugal como para um sítio que se vai esboroando quase sem dar por isso.  
 
Depois do excelente "Longe de Manaus", Francisco José Viegas regressa com um livro excepcionalmente bem escrito e estimulante, em que o inspector Jaime Ramos, a propósito de dois homicídios, se depara com as suas próprias memórias e vivências. E é isso que é fascinante em Jaime Ramos: ele não pertence a este mundo volátil em que todos os fins justificam os meios utilizados.  
 
Ele é, como diria Chandler, um homem de honra, comum e extraordinário ao mesmo tempo. "Mas Jaime Ramos não era um historiador e o processo não o interessava. O seu mundo era o das vinganças pessoais e o dos caminhos escondidos. Fazer justiça não era uma das suas prioridades", lê-se.  
 
Tudo começa com um homicídio numa festa de encerramento do Palace Hotel, no Vidago. Ali surge morto um jornalista de economia, Joaquim Seabra, de interesses um pouco nebulosos e com um especial interesse sobre Angola. Depois descobre-se o corpo de um empresário angolano, Benigno Mendonça, junto ao Pinhão, no reino do Vinho do Porto, o Douro.  
 
Jaime Ramos e os seus adjuntos Isaltino de Jesus e José Corsário tentam penetrar para lá do nevoeiro com estas duas mortes e elas vão ter a Angola, a Maio de 1977 e às feridas nunca cicatrizadas desses dias em que muitos desapareceram para sempre. É uma teia de contornos emocionais e também políticos que se tece nestas páginas e que acaba também por nos levar à Guiné, e aos tempos militares de Jaime Ramos.  
 
Se a personagem de Adelino Fontoura é a chave do romance (porque este não é um policial estrito), o mais fascinante neste "O Mar em Casablanca" é o universo do próprio inspector. Jaime Ramos sente as rugas, vai envelhecendo, e o seu olhar sobre o que o cerca (as pessoas, o mundo), é cada vez mais o de alguém que imbuído num imaginário que pouco tem a ver com este presente, olha descrente para o que fascina hoje as pessoas.  
 
"Vim ver o bar, tinha saudades. À medida que se envelhece há mais saudades. Os velhos têm mais saudades. E depois adormecem felizes", lê-se, quando Ramos dialoga com Jorge Alonso, o dono do bar Bonaparte que frequenta há anos infinitos. Mas, claramente, Jaime Ramos não consegue adormecer feliz com o que vê.  
 
É entre um mundo que está a desaparecer e outro que se move à velocidade da luz que Jaime Ramos se movimenta, cambaleando, porque já não conhece perfeitamente o piso que calca. Como lhe diz o velho produtor do Douro: "Estas vinhas são parte desse passado, mas os tempos são outros, mais difíceis, terríveis, bons para quem tem dinheiro vivo, dinheiro fresco. Nós não temos dinheiro, senhor Ramos. Os velhos ricos não têm dinheiro. Temos uma adega, estas vinhas, os retratos da família, vícios nem por isso caros". Resta-lhes, como a Jaime Ramos, uma riqueza maior: a memória.» 


Fernando Sobral

publicado por Porto Editora às 09:19
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o autor

Francisco José Viegas nasceu em 1962. Foi professor universitário e jornalista, tendo sido director da revista Grande Reportagem e da Casa Fernando Pessoa.

Actualmente é director editorial da Quetzal e director da revista Ler, colaborador de vários jornais e revistas (nomeadamente Correio da Manhã, A Bola, Volta ao Mundo). Foi responsável por programas na rádio (Antena 1) e televisão (Livro Aberto, Escrita em Dia, Ler para Crer, Primeira Página, Avenida Brasil, Prazeres e Um Café no Majestic).

Da sua obra destacam-se livros de poesia (Metade da Vida, O Puro e o Impuro e o mais recente Se Me Comovesse o Amor) e os romances Regresso por um Rio, Morte no Estádio, As Duas Águas do Mar, Um Céu Demasiado Azul, Um Crime na Exposição, Um Crime Capital, Lourenço Marques e Longe de Manaus, com o qual obteve o Grande Prémio de Romance e Novela, de 2005, da Associação Portuguesa de Escritores.

Os seus livros estão publicados na Itália, Alemanha, Brasil, França e República Checa.

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