
Fachada e lago do Vidago Palace Hotel (fotografia de 1913),
onde decorre a primeira parte da acção de O Mar em Casablanca.
«Havia relâmpagos a meio da noite. Clarões entre
o arvoredo, todos se lembravam dos clarões entre o arvoredo.
Os carros iluminados e salpicados de água, os relâmpagos reflectidos
no lago diante do hotel, quase todas as janelas iluminadas na
noite de Novembro como uma recordação de glória e romance.
A frase foi repetida aqui e ali, admirada, reescrita como um testemunho
e uma despedida: uma recordação de glória e romance.
O hotel, que albergou os refugiados da Monarquia e os primeiros
luxos da República, despedia-se do século seis anos depois
de ele ter passado, quase cem anos depois de ter sido inaugurado
às escondidas.»

Postal de c. 1911, com o hall do Vidago Palace.
«Na maior parte das vezes, casais que vinham para um fim-de-semana derradeiro naquele hotel escondido no meio dos bosques. Malas nos
elevadores. Salas de jogos, uma mesa de snooker, outras mesas
cobertas de flanela verde, candeeiros de pé, lâmpadas amarelas, luz
mortiça, ténue, filtrada, um final de tarde de sábado, as nuvens
sobre a copa das árvores mais altas. Cedros, abetos, pinheiros, carvalhos,
castanheiros, bétulas gigantescas rodeando o canal onde
um barco a remos tinha sido deixado amarrado em memória dos
passeios antigos, dos Verões antigos.»

Salão de restaurante (foto de c. 1911), onde decorre
a festa de encerramento do Vidago Palace Hotel, que ocupa
alguns dos capítulos de O Mar em Casablanca.
«O hotel, que albergou os refugiados da Monarquia e os primeiros
luxos da República, despedia-se do século seis anos depois
de ele ter passado, quase cem anos depois de ter sido inaugurado
às escondidas. O casal, um homem e uma mulher de meia-idade,
ele de smoking, ela de vestido preto, abriram o baile – havia uma
orquestra que tocou pela primeira vez nessa noite depois de todos
terem aplaudido o cozinheiro, um homem de quarenta anos e
barba rarefeita que foi apresentado aos convidados a meio da
sobremesa. Uma sala cheia de admiradores, ele sempre sonhara
ser aplaudido daquela forma.»
Francisco José Viegas nasceu em 1962. Foi professor universitário e jornalista, tendo sido director da revista Grande Reportagem e da Casa Fernando Pessoa.Actualmente é director editorial da Quetzal e director da revista Ler, colaborador de vários jornais e revistas (nomeadamente Correio da Manhã, A Bola, Volta ao Mundo). Foi responsável por programas na rádio (Antena 1) e televisão (Livro Aberto, Escrita em Dia, Ler para Crer, Primeira Página, Avenida Brasil, Prazeres e Um Café no Majestic).
Da sua obra destacam-se livros de poesia (Metade da Vida, O Puro e o Impuro e o mais recente Se Me Comovesse o Amor) e os romances Regresso por um Rio, Morte no Estádio, As Duas Águas do Mar, Um Céu Demasiado Azul, Um Crime na Exposição, Um Crime Capital, Lourenço Marques e Longe de Manaus, com o qual obteve o Grande Prémio de Romance e Novela, de 2005, da Associação Portuguesa de Escritores.
Os seus livros estão publicados na Itália, Alemanha, Brasil, França e República Checa.