Terça-feira, 6 de Outubro de 2009

O Mar em Casablanca: uma receita para guardar.

 

Vem na página 200 de O Mar em Casablanca, durante um encontro entre Jaime Ramos e o seu amigo Ramiro, advogado e bebedor de Blue Curaçao. Trata-se de uma receita de arroz de sardinhas, uma das preferidas do inspector Jaime Ramos:

 

     «Sabes porque é que eu era bom a jogar à bola? Aprendi a
jogar à bola descalço, sabia entortar os pés para fazer efeitos.»
      Ele bebia o seu cálice de Blue Curaçao, como fazia sempre
depois de jantar. Jaime Ramos não bebia. Cozinhara pela primeira
vez desde há muito tempo, por capricho, aproveitando as últimas
sardinhas de fora da temporada, compradas num supermercado.
Retirou-lhes as vísceras e, com a ponta da faca, retirou-lhes a pele
até formar doze filetes que estendeu numa tábua de madeira,
enquanto Ramiro, sentado num banco da cozinha, bebia cerveja e
observava como o amigo mantinha a precisão dos seus gestos
manejando a faca. Cortando a cebola em fatias finas, picando dois
dentes de alho, escaldando alguns tomates maduros que retirara
do congelador – para lhes retirar a pele e cortá-los em pedaços
regulares, esmagando alguns com um garfo. Num tacho, deixou
que a cebola em rodelas cozinhasse no azeite; não uma fritura
rápida mas a suave alquimia de uma cozedura lenta, de baixa temperatura.
Juntou então as sardinhas e subiu o fogo. Agora sim, fritar,
de modo a que as sardinhas perdessem a sua película fresca,
gelatinosa, muito rapidamente, inundando a cebolada do seu
aroma. Esse era o segredo, explicou; se as fritasse, ficaria o cheiro a
invadir a cozinha, toda a casa, mas a cama de cebola semicrua suavizou
o cheiro. Depois de recolher os doze filetes regou-os com
sumo de limão. A cebolada tinha escurecido, dourada no azeite e
acrescentada de pequenos fragmentos do mais popular dos peixes;
juntou-lhe então o tomate, o louro, o alho picado, um copo de
vinho branco, três copos de água, e deixou que fervesse. De um
frasco tirou pimentos assados a que subtraiu a pele fina, uma operação
fácil. Quando o caldo tinha mais de um quarto de hora de
fervura, juntou sal, o arroz e os pimentos e deixou cozinhar por
dez minutos, até que os grãos de carolino, soltos e suculentos,
reclamaram as sardinhas. Entregou-lhas, sacrificando a doçura do
peixe à doçura ainda maior do caldo, ligeiramente espesso (graças

ao tomate e à cebola, entretanto desfeita, transformada numa
pasta flutuante e gelatinosa), e tapou o tacho por mais cinco minutos.
      Ao abrir, o perfume espalhou-se pela cozinha e Jaime Ramos,
que já tinha aberto uma garrafa de vinho, chamou Rosa pelo telefone
– ela desceria os dois andares, carregando a sobremesa, e juntar-
se-ia a um jantar para assinalar a saída de Jaime Ramos do
hospital.
      «Voltar à vida», ele murmurou depois, para um Ramiro en -
costado ao espaldar da cadeira, descalço, segurando o seu cálice de
Blue Curaçao. Rosa saíra para ir ao cinema com amigas.
      «E então temos um homem que voltou à vida», disse ele. «Não
conhecia essa tua história da Guiné. Recrutado para o partido por
um homem que não podia recrutar-te.»
      «Sou um falhado.»
      «E dos grandes», Ramiro rindo.

publicado por Porto Editora às 22:46
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2 comentários:
De Adelia Franco a 8 de Outubro de 2009 às 11:59
Muito bom!
li uma historia, pequenina, e aprendi uma reçeita
tão saborosa que quase senti o cheiro.
será que vou conseguir a mesma proeza, talvez basta
ler mais uma vez, e não prometer almoço a ninguem nesse dia.

De Gândavo a 8 de Outubro de 2009 às 23:32
Que fome do caraças.
E que saudades...

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o autor

Francisco José Viegas nasceu em 1962. Foi professor universitário e jornalista, tendo sido director da revista Grande Reportagem e da Casa Fernando Pessoa.

Actualmente é director editorial da Quetzal e director da revista Ler, colaborador de vários jornais e revistas (nomeadamente Correio da Manhã, A Bola, Volta ao Mundo). Foi responsável por programas na rádio (Antena 1) e televisão (Livro Aberto, Escrita em Dia, Ler para Crer, Primeira Página, Avenida Brasil, Prazeres e Um Café no Majestic).

Da sua obra destacam-se livros de poesia (Metade da Vida, O Puro e o Impuro e o mais recente Se Me Comovesse o Amor) e os romances Regresso por um Rio, Morte no Estádio, As Duas Águas do Mar, Um Céu Demasiado Azul, Um Crime na Exposição, Um Crime Capital, Lourenço Marques e Longe de Manaus, com o qual obteve o Grande Prémio de Romance e Novela, de 2005, da Associação Portuguesa de Escritores.

Os seus livros estão publicados na Itália, Alemanha, Brasil, França e República Checa.

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