Terça-feira, 6 de Outubro de 2009

Terceira e última parte da pré-publicação no Público

 

«Um retrato de uma beleza de outrora, aquele que se podia ver do alto dos miradouros e das ermidas abandonadas, em ruínas. O seu cheiro preferido não era aquele, indefinido e carregado de arvoredo. Esse cheiro ele nem recordava; apenas o reconhecia se a paisagem lhe lembrava a infância: o fumo dos crepúsculos, na sua aldeia, o ruído dos vales. Realmente, ele não tinha cheiro. Precisava de um, como toda a gente, mas tudo na sua vida dependia das horas do dia - e, por isso, ele sabia que não iria voltar à sua terra depois da reforma, porque a sua terra tinha acabado, um vendaval tinha eliminado a sua memória paia impedi-lo de ser um velho nostálgico. Junto do ancoradouro havia um cesto de lixo e foi lá que esmagou o resto da cigarrilha, enquanto se voltava para o outro polícia, que se erguera e sacudia as pernas, depois de ter estado ajoelhado junto do cadáver.

"Já está?"

"Por mim,já."

"Quem é ele?"

"O director do hotel já foi ver. Ainda está tudo a dormir." "Era bom que estivessem todo o dia a dormir. Precisamos de mais uma ou duas horas. Vamos ter com o tal director do hotel."

"E isto, chefe?", perguntou o outro, apontando para o corpo. "O chefe não quer vê-lo? Vai ficar aqui?"

"Mostra lá, Isaltino, mostra lá, não há morto que te apareça que não queiras fazer dele a estrela da companhia", ele encolhendo os ombros, encaminhando-se para a beira do lago e preparando-se para se ajoelhar ao pé do morto. O homem estava vestido de smoldng e continuava calçado, a pele escurecera, suja e manchada de líquenes, folhas de árvore que tinham caído na água do lago, saibro amarelado da margem para onde fora arrastado. A camisa com o colarinho desapertado, o laço desfeito mas preso debaixo do colarinho por um alfinete, aliança no dedo anelar esquerdo, um relógio de mostrador preto no pulso esquerdo, botões de punho, naturalmente, um dos sapatos deformado, e aquelas duas manchas de vermelho e negro, à altura do estômago, por onde o sangue escorrera bastante, sujando a camisa e espalhando-se pela água do lago.

"O telemóvel estava no bolso das calças, chefe. Está aqui", disse Isaltino segurando um saco de plástico onde guardara o telefone, um minúsculo objecto preto do tamanho de um maço de cigarros.

"E os documentos?"

”Nada, chefe. Nada. Nem carteira, nem isqueiro, nem chaves, nem papéis nenhuns. Procurei em todos os bolsos. Não se guarda grande coisa num smoking . Digamos, não é um fato que a gente vista todos os dias."

"Tu tens smoking, Isaltino?"

"Não. Para quê?"

"Nunca se sabe. Há coisas que me escondes."

"Eu nunca esconderia isso. Um smoking nunca. Mas enfim. O chefe tem?"

"Também não, mas tu sabes mais de smokings do que eu."

"É dos livros. E dos filmes. Há sempre um smoking no James Bond."

"Mas este não era o James Bond."

"À primeira vista, não, mas os mortos enganam muito. Se o chefe não se importar, eu gostava de ir andando. O médico está ali a chegar e temos um hotel inteiro por nossa conta. Ninguém nos manda vir tão cedo, às seis da manhã."

"Eu ando com insónias, Isaltino."»

publicado por Porto Editora às 17:28
link do post | comentar | favorito
|

o autor

Francisco José Viegas nasceu em 1962. Foi professor universitário e jornalista, tendo sido director da revista Grande Reportagem e da Casa Fernando Pessoa.

Actualmente é director editorial da Quetzal e director da revista Ler, colaborador de vários jornais e revistas (nomeadamente Correio da Manhã, A Bola, Volta ao Mundo). Foi responsável por programas na rádio (Antena 1) e televisão (Livro Aberto, Escrita em Dia, Ler para Crer, Primeira Página, Avenida Brasil, Prazeres e Um Café no Majestic).

Da sua obra destacam-se livros de poesia (Metade da Vida, O Puro e o Impuro e o mais recente Se Me Comovesse o Amor) e os romances Regresso por um Rio, Morte no Estádio, As Duas Águas do Mar, Um Céu Demasiado Azul, Um Crime na Exposição, Um Crime Capital, Lourenço Marques e Longe de Manaus, com o qual obteve o Grande Prémio de Romance e Novela, de 2005, da Associação Portuguesa de Escritores.

Os seus livros estão publicados na Itália, Alemanha, Brasil, França e República Checa.

pesquisar

Novembro 2009

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
17
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30

posts recentes

No Porto

Em Guimarães

«O Mar em Casablanca» na ...

Um olhar sobre "O Mar em ...

Francisco José Viegas na ...

O cheiro da terra molhada...

O Mar em Casablanca na Ti...

O Mar em Casablanca nos A...

"O fechar de um ciclo" (r...

Aventuras de Jaime Ramos ...

arquivos

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

tags

todas as tags

subscrever feeds