Terça-feira, 6 de Outubro de 2009

Segunda parte da pré-publicação no Público

 

«Os guardas reuniram-se perto do jipe, de costas voltadas para o pequeno lago que se afunilava sob os dois teixos e os rododendros que sobreviviam debaixo da camada de musgo dos troncos. Ficou de pé, as mãos atrás das costas, a cigarrilha dependurada da boca, olhando primeiro para os ramos das árvores e, depois, para o corpo que tinham retirado da água, coberto por uma espécie de espuma esverdeada, a mesma que flutuava no canal.
Ele lembrava-se do canal, mas era uma imagem que só existia na sua memória e apenas durante o Verão, quando havia ruídos ao longo do parque, ruídos e vozes de crianças vindas da piscina monumental, de azul-claro, aquele burburinho das mesas e o tilintar de copos no terraço. Um mergulho na água transparente da piscina, sobre um azul de azulejo. Quantas vezes estivera ali? Três, quatro.
Talvez quatro. Apenas uma vez em pleno Inverno, depois de uma viagem extenuante pelas velhas estradas que entretanto tinham sido abandonadas, entre florestas que arderam e campos que foram sendo conquistados pelas vilas do planalto. Havia uma lareira na velha estalagem das traseiras do hotel. Serviam aguardentes antigas, silenciosas, em balões aquecidos. Havia sofás. Tapetes junto da lareira. Quartos com grandes janelas de vidro de onde se viam os pinhais, a vegetação que tomara conta das colinas, o céu cinzento da manhã seguinte.
Rosa gostara daquele quarto aquecido, voltado para as montanhas, os cumes cobertos de granitos disformes, rochas escuras recortadas no horizonte. E gostara do entardecer na sala do velho restaurante onde os criados se movimentavam em silêncio, durante o jantar, durante o almoço, durante a hora do chá. Ele limitarase a guiar pelas estradas que levavam a cruzamentos perdidos nas colinas das serras, e na sua memória tudo isso se passara num Inverno qualquer, mesmo que tivesse acontecido durante o Verão. Essa geografia vinha de outro mundo e esse era o mundo da sua infância; não tinha com ele uma boa relação, nem sequer uma relação. Limitava-se a reconhecer o cenário: fumo a erguer-se sobre as aldeias ao final da tarde, em crepúsculos densos e frios, ou a neblina de calor que tarda em desaparecer dos sopés das montanhas, durante o mês de Agosto; os rios, os animais, as nuvens, os muros dos campos, os choupos, os castanheiros, as vinhas, a história da sua família, os pais que tinham morrido há tempo de mais, os cemitérios em ruínas, o sotaque, o pão, o vinho.
Ele não fora talhado para essas coisas nem para essas memórias. Rosa costumava dizer que havia uma incompatibilidade entre ele e o mundo da natureza, mas não era bem isso. Simplesmente, não tinha relação com esse mundo.

”E que mundo é o teu?" "Não sei. Esta casa. Um dia depois do outro."

Ele compreendia a pergunta, mas gostava de não pensar na sua terra - o que poderia ser invulgar num transmontano do princípio dos anos cinquenta, educado pelo amor das neblinas e pelo temor das insolações. E pela ideia de que havia nobreza na pele muito branca das mulheres das montanhas, onde se notavam mais os sinais rosados da boa saúde ou da abundância de geadas e de cieiro. Ultimamente pensava muito na paisagem das montanhas, nos vales escuros do rio, que o enviavam à sua adolescência, antes do serviço militar e da fuga para a cidade.

"És feliz aqui ou queres voltar à tua terra depois da reforma?", perguntara-lhe Rosa depois. Ou uma noite destas. Ou há uns anos, tanto fazia. Não se lembrava quando fora, mas a pergunta fazia eco desde essa altura, sobretudo quando aquela onda de nostalgia voltava para inquietá-lo e ele propunha uma viagem pelas serras, subindo e descendo por estradas sinuosas, escuras, percorrendo florestas abafadas e húmidas.

”O meu cheiro preferido", ele dizia. Mas não era. Era apenas uma paisagem - um negrume no limite do céu, ao crepúsculo.»

(continua)

publicado por Porto Editora às 16:54
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o autor

Francisco José Viegas nasceu em 1962. Foi professor universitário e jornalista, tendo sido director da revista Grande Reportagem e da Casa Fernando Pessoa.

Actualmente é director editorial da Quetzal e director da revista Ler, colaborador de vários jornais e revistas (nomeadamente Correio da Manhã, A Bola, Volta ao Mundo). Foi responsável por programas na rádio (Antena 1) e televisão (Livro Aberto, Escrita em Dia, Ler para Crer, Primeira Página, Avenida Brasil, Prazeres e Um Café no Majestic).

Da sua obra destacam-se livros de poesia (Metade da Vida, O Puro e o Impuro e o mais recente Se Me Comovesse o Amor) e os romances Regresso por um Rio, Morte no Estádio, As Duas Águas do Mar, Um Céu Demasiado Azul, Um Crime na Exposição, Um Crime Capital, Lourenço Marques e Longe de Manaus, com o qual obteve o Grande Prémio de Romance e Novela, de 2005, da Associação Portuguesa de Escritores.

Os seus livros estão publicados na Itália, Alemanha, Brasil, França e República Checa.

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