Terça-feira, 6 de Outubro de 2009

Primeira parte da pré-publicação no Público

 

«O regresso do detective Jaime Ramos

Na quinta-feira chega às livrarias o policial O Mar em Casablanca de Francisco José Viegas, vencedor do Grande Prémio de Romance e Novela da APE, 2005, com Longe de Manaus

IMAGINEMO-LO VISTO DO CÉU

Na altura, alguém sugeriu que tentassem voltá-lo ainda na água, mas todos ouviram essa frase e ficaram paralisados: "Imaginemo-lo visto do céu." Ele disse a frase enquanto, com o olho direito semicerrado, acendia uma cigarrilha escura que retirara do bolso do blusão: "Imaginemo-lo visto do céu", e guardou o isqueiro, olhando em redor, para aquela clareira aberta no coração do parque, protegida pela copa dos grandes cedros e abetos, como se procurasse alguma coisa específica, ou nada em particular: um sinal na vegetação, entre os buxos, nos canteiros de tulipas transplantadas, entre as roseiras. Ou pegadas, provavelmente, porque se demorou uns minutos a inspeccionar o chão de saibro e os caminhos que iam dar ao campo de golfe - por um lado - ou aos campos de ténis - descendo a colina. Alguma coisa. Uma nuvem de fumo, azulada, contrastando com o verde e castanho do parque, o cheiro do tabaco no meio dos musgos. E então olhou para o céu, erguendo o rosto para a luz cinzenta da manhã. Daí a minutos começaria a chover, aquela chuva miúda que mal se ouvia a cair. Os quatro homens que rodeavam o cadáver formavam um semicírculo de fantasmas vestidos de escuro, três deles vestindo impermeáveis compridos, até aos tornozelos, azuis, com capuz e monograma do hotel - apenas o polícia permanecia indiferente à chuva, a cigarrilha pendendo do canto da boca, como se não prestasse atenção ao corpo abandonado no chão. Vinte metros à direita, o jipe que os guardas tinham feito chegar até ali, com uma das rodas enterrada na areia.

"Viemos logo", informou um deles quando um dos homens da Judiciária - o mais velho - saiu do carro azul-escuro deixando os vidros abertos, apesar da chuva. "Arrastámo-lo para a margem, mas achámos que era melhor deixá-lo ali. Quem souber fazer as coisas, que as faça agora. A cada um o seu mister.

Fizemos bem?"

"Quem é ele?"

"O director do hotel já foi ver. Um dos convidados da festa. Grande festa, raio de festa, uma festa de encerramento do hotel. Vai estar fechado dois anos."

"E onde está o director do hotel?", perguntou o homem. "Foi lá para dentro há uns minutos. Diz que é uma chatice, isto tudo. Há cento e vinte convidados a dormir."

"Cento e vinte e seis", corrigiu ele, apontando a cigarrilha para o corpo estendido na margem. "O que não altera muito as coisas. Vamos vê-lo."

"Não se espante."

"Eu ainda me espanto com muitas coisas", murmurou ele, voltando-se para o polícia mais novo, que já se aproximava da água, falando ao telefone. "E fizemos bem?", voltou o guarda.
Ele olhou-o, sério. O guarda tinha um bigode de outro século, como o hotel, e - ao perto - viam-se duas gotículas de água da chuva num dos cantos.

"Sim. Fizeram muito bem. Como é o seu nome?"

"Rodrigues. Sargento Rodrigues. É muito raro isto acontecer no Vidago, inspector. Não estamos habituados, mas vê-se muito nos filmes. E nos regulamentos." "É o progresso, amigo Rodrigues. Algum dia teria de chegar ao Vidago. Faça-nos um favor: não deixe ninguém andar por aqui, mande vedar isto, desde o lago até ao caminho ali ao fundo. Vamos ter muito que fazer por aqui."

"Só uma pergunta. Veio logo um inspector assim, como o senhor, por alguma razão?"

"O médico disse que eu preciso de fazer ginástica de vez em quando." "Estou a ver. Mas vir do Porto ao Vidago é como se não houvesse ginásios no Porto." "Estão fechados aos domingos, sargento."»

 

(continua)

publicado por Porto Editora às 10:45
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o autor

Francisco José Viegas nasceu em 1962. Foi professor universitário e jornalista, tendo sido director da revista Grande Reportagem e da Casa Fernando Pessoa.

Actualmente é director editorial da Quetzal e director da revista Ler, colaborador de vários jornais e revistas (nomeadamente Correio da Manhã, A Bola, Volta ao Mundo). Foi responsável por programas na rádio (Antena 1) e televisão (Livro Aberto, Escrita em Dia, Ler para Crer, Primeira Página, Avenida Brasil, Prazeres e Um Café no Majestic).

Da sua obra destacam-se livros de poesia (Metade da Vida, O Puro e o Impuro e o mais recente Se Me Comovesse o Amor) e os romances Regresso por um Rio, Morte no Estádio, As Duas Águas do Mar, Um Céu Demasiado Azul, Um Crime na Exposição, Um Crime Capital, Lourenço Marques e Longe de Manaus, com o qual obteve o Grande Prémio de Romance e Novela, de 2005, da Associação Portuguesa de Escritores.

Os seus livros estão publicados na Itália, Alemanha, Brasil, França e República Checa.

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